Abril/18

se você quer cantar

se você quer cantar

Cantar é uma atividade que desperta interesse em muitas pessoas. Com o interesse, porém, surgem também as dúvidas, sobretudo a artistas, profissionais da voz e estudantes de técnica vocal. Por isso, na semana em que celebramos o Dia da Voz (16/04), separamos algumas questões sobre esse tema, que foram respondidas pela professora de técnica vocal Rosana Marques, fundadora da Cordas & Cordas - Escola de Música.

1. Cantar, para quê?

Muitos compositores da nossa boa música já responderam esta questão. Djavan nos diz que "cantar é mover o dom no fundo de uma paixão, revelar todo o sentido". Vinicius de Moraes nos emocionava dizendo: "mais que nunca é preciso cantar, é preciso cantar pra alegrar a cidade". Quando Tom Jobim nos convoca - "Abre teus braços e canta a última esperança, esperança divina de amar em paz" -, parece que o canto adquire um efeito quase mágico de prazer, satisfação, bem querer e bem estar pessoal.

Em 2001, apresentei um show no Teatro Renascença, em Porto Alegre, cujo o nome era "Se Bastasse uma Canção", referindo-se à música de Eros Ramazoth, de mesmo nome, que dizia: "É preciso muito, muito, muito mais gente cantando".

De fato, cantar faz bem a quem canta e a quem ouve o cantor!

2- “Fiz um teste em um coral de minha cidade, e me disseram que o melhor seria eu fazer qualquer outra coisa, menos cantar. Isso é verdade?”

Muitas pessoas já ouviram, até mesmo de seus familiares, que não deveriam cantar em público. Isto pode causar traumas futuros, pois cantar é um ato primário e instintivo, a voz cantada expressa nossos sentimentos e vontades.

TODAS AS PESSOAS podem e devem cantar. Isto não significa que todos podem tornar-se cantores profissionais, mas que somos capazes de usufruir dos benefícios que esta atividade musical nos proporciona! Ao cantar, liberamos endorfina, enzimas que trazem relaxamento e bem estar. Cantando em grupo, liberamos oxitoquininas, que diminuem a ansiedade e o stress. Além disso, cantar é uma atividade aeróbica, devido à grande quantidade de oxigênio que trazemos para nosso corpo, diminuindo os níveis de cortisol (hormônio do stress), e fortalecendo nosso sistema imunológico.

Muitas pesquisas científicas comprovaram que, através do ato de cantar, não importando a qualidade do som emitido, é possível tratar enfermidades neurológicas como o Mal de Parkinson, gagueira, e até autismo. Isto, porque o canto pode provocar novas ligações neurais, aumentando a função cognitiva, melhoria de memória e aperfeiçoamento das funções de resoluções de problemas.

Cantar nos torna pessoas melhores!

3- E todos podem cantar?

É claro que sim! Salvo quem possui alguma patologia no aparelho fonador, todos estão passíveis de cantar! Mas para se poder cantar corretamente, isto é, dentro dos parâmetros musicais, aplicando a técnica vocal adequada ao repertório escolhido, observando a dinâmica e interpretando, de fato, o texto musical, é necessário muito estudo e trabalho.

É a partir disso que podemos encontrar "cantores" e "Cantores". Aqueles que simplesmente abrem a boca e julgam estar cantando, e outros que querem mais do que um elogio de amigos e familiares: querem aprender a cantar corretamente.

4. Mas para cantar música popular, precisa mesmo de tanto estudo?

Independentemente do estilo musical, do repertório que se pretende interpretar, e das habilidades naturais que o cantor possa apresentar, o canto sempre precisa ser aperfeiçoado, e isto exige muito estudo e dedicação. O cantor popular deve praticar os exercícios de relaxamento, respiração, ressonância, projeção e extensão vocais próprios do estudo técnico da voz, com grande ênfase na articulação. As palavras precisam ser emitidas com clareza e intencionalidade. Além disso, as variações rítmicas com síncopas e divisões alternadas, próprias de alguns gêneros populares, vão demandar ao intérprete uma percepção rítmica mais apurada: para cada estilo existe uma forma específica de se cantar que um bom educador da voz pode orientar.

Discordo de quem diz que "cantar música popular é mais fácil"!

5- Qual é, então, a diferença entre "canto popular " e "canto lírico"?

O canto lírico, ou erudito, é derivado das técnicas milenares do "bel canto" em suas diversas escolas como a italiana, alemã, francesa, russa, entre outras de períodos históricos que vão desde o barroco, passando pelo classicismo, romantismo, até o contemporâneo. São indiscutíveis os benefícios produzidos por tais técnicas. A extensão, projeção e longevidade vocais, dentre outros aspectos performáticos, serão aprimorados. Porém, devem ser aplicados especificamente à estética do erudito. Neste estudo, é importante que o cantor tenha o domínio da leitura musical, já que todo o repertório é partiturizado, e o cantor deve ser fiel a todos os sinais interpretativos descritos no texto musical. As composições foram escritas de acordo com a classificação vocal dos intérpretes, sendo assim, cada registro vocal, feminino e masculino, tem seus textos já pré-determinados em cada peça musical.

O canto popular, por sua vez, pode estar associado ao folclore, temas regionais, canções étnicas, cantigas de trabalho, serestas, modinhas, e às composições urbanas - nos dias de hoje, mais precisamente -, que passam pelas variações do Samba, Bossa Nova, Jazz, Blues, Rock, Pop Nacional e Internacional, além de tantos outros estilos e ritmos do mundo inteiro!

Mas é preciso saber que cantar samba é diferente de cantar baião, que é diferente de cantar música sertaneja, e assim por diante. Cada estilo possui um conjunto de características distintivas, que vão da postura do intérprete até os instrumentos utilizados para o acompanhamento, passando pelos sotaques regionais e pelas formas de emissão vocal. Um exemplo disso são os cantores de afoxé, que surgiram com as festas de rua, movimentando-se bastante, animando o público. Os cantores de Bossa Nova, por outro lado, são mais intimistas. O aprendizado musical dos cantores populares, normalmente, é desenvolvido a partir da intuição e da memória.

Apesar de atualmente já existirem publicações partiturizadas de composições populares brasileiras e estrangeiras, dificilmente estão arranjadas de acordo com as classificações vocais, o que leva aos cantores fazerem seus próprios arranjos, podendo incluir mudança de tonalidade e outras alterações no texto musical original.

Desta forma, observa-se que muitas vezes falta ao cantor popular um maior conhecimento técnico e teórico, e ao cantor erudito pode faltar a criatividade para buscar novas formas de expressão vocais.

6- E existe algo em comum entre o canto popular e o erudito?

Tanto o cantor popular quanto o erudito possuem o mesmo instrumento: o aparelho fonador. Desta forma, ambos devem aprender a produzir o som corretamente, utilizando mecanismos físicos como a respiração, o relaxamento, as cavidades de ressonância, a postura corporal e os mecanismos psíquicos que influenciam na interpretação do texto musical. Independentemente das diferenças visíveis que existem entre os estilos, ambos se utilizam do mesmo instrumento e de suas características.

7-E como faço para estudar? Devo procurar um professor de qual estilo?

Evidentemente que, ao estudar, deve-se determinar qual estilo buscar entre o popular, o erudito e entre suas diversas sub-categorias.
Como ocorre com qualquer estudo na área da música, é muito importante que você estude o instrumento que mais lhe agrada, pois o aprendizado irá demandar muito tempo e dedicação. Se não gostar da sonoridade, certamente ficará mais difícil, além de não trazer prazer algum. Porém, existe um mito de que tudo se pode fazer, em se tratando de arte, mas não é bem assim, ao meu ver. Existem, no caso específico do canto, uma série de fatores fisiológicos, psíquicos e culturais que vão influenciar na qualidade final do cantor.

Claro que a escolha de um bom professor é fundamental. Este profissional deve ser capaz de perceber as características individuais do estudante para determinar qual método utilizar. Um professor de canto deve ser, antes de tudo, um educador, que além de ensinar as técnicas mais apropriadas para o estilo, tenha conhecimento das estruturas musicais (ritmo, melodia e harmonia) e saiba executar um instrumento musical.

Conforme já foi dito em respostas anteriores, cada estilo possui suas características, e o cantor deve adequar-se a isso. Não se pode cantar peças eruditas sem um bom preparo técnico, domínio do idioma a ser cantado e das estruturas musicais implícitas no texto. Já o professor de canto popular deve não só aplicar as técnicas do "bel canto" no qual certamente se formou, mas saber, sobretudo, aplicá-las às necessidades do canto popular, como, por exemplo: a articulação das palavras nas diversas variações rítmicas, e outros aspectos.

Além disso, o professor deve conhecer um vasto repertório de canções populares nacionais e internacionais, para fazer a escolha adequada das canções que seu aluno irá interpretar, alterando as tonalidades quando necessário; percebendo o que letra e música querem de fato comunicar.

Os alunos de canto popular precisam experimentar microfones, amplificadores e pedais de efeito para dosarem o volume e as variações de timbre que estes aparelhos produzem.

8 - E sobre os efeitos que se pode fazer naturalmente com a voz, como o "drive"?

O "drive" é uma técnica que utiliza a ressonância da laringe, a partir do apoio diafragmático (técnica da respiração empregada no canto, em geral), produzindo distorções que deixam o som mais rasgado e rouco. É muito utilizado no Rock, Blues, Soul, Heavy Metal e até na música popular.

Inicialmente, deve ser produzido a partir do estímulo do "fry" que é o som feito com total relaxamento da musculatura da garganta, como fazemos quando relaxamos após um esforço físico qualquer. É bem importante que o cantor, ao experimentar esta técnica, não sinta pressão, força e ou sensação de que está "arranhando" a garganta.

Existem cantores que conseguem uma boa performance fazendo uso deste recurso técnico, ao passo que outros o fazem sem grande longevidade vocal. Isto, porque se esta técnica não for aplicada a partir da utilização correta do aparelho fonador, provavelmente poderão haver consequências desastrosas na voz.

Se você quiser ouvir exemplos de cantores que utilizam esta técnica com maestria e virtuosidade, é só escutar: Bruce Dikinson (Iron Maiden), em " The Number of the Beast"; Steven Tyler (Aerosmith), em "Dream On"; Ian Gillan (Deep Purple), em “Smoke on the Water”; Rob Halford (Judas Priest), em “Dragonaut”; Dave Grohl (Foo Fighters), em “The Pretender”.

9 - Queria aprender a fazer aqueles efeitos de " vibrato" na voz! Acho tão melodiosos e agradáveis ao ouvido!

O "vibrato" é o resultado da oscilação de um corpo em movimento. Na prática musical, pode ser produzido em diversos instrumentos e naturalmente nas cordas, ou pregas, vocais também. Podem ocorrer de forma involuntária, ou seja, sem controle; ou a partir do nosso comando. Assim como qualquer outro ornamento que fazemos ao cantar, é necessário ter domínio das técnicas básicas do canto para se iniciar este estudo. Além disso, temos que ter bom senso estético, já que nem todo ornamento pode ser utilizado em qualquer repertório.

Para cada estilo se aplica um determinado incremento, que deve sempre valorizar o texto musical, e jamais depreciá-lo com enfeites exagerados! No canto popular, os "vibratos" ficam mais interessantes quando colocados em partes conclusivas da canção: final de versos ou estrofes.

É importante praticar muitos exercícios melódicos nos vocalizes para produzir este efeito, que deve ocorrer após se obter a sustentação da nota e jamais produzir o "vibrato" antes de atingir a nota desejada. Para isto, é necessário ter um bom profissional da voz a fim de dar as orientações corretas.

10 - Quais cuidados devemos ter com nossa voz?

De fato, temos que ter cuidados com nossa voz, mesmo que não a utilizemos profissionalmente.

Primeiramente, é muito importante cuidarmos da hidratação. Em média, de 7 a 8 copos de água devem ser ingeridos por dia.

O relaxamento muscular também é muito importante. Bocejar é uma boa dica para aliviar as tensões do pescoço e da cabeça, além de ajudar na produção do som nas cavidades de ressonância.

Respirar corretamente, utilizando o abdômen e a expansão das costelas laterais, com o apoio diafragmático, é fundamental. Ao concentrarmos grande quantidade de ar na parte superior dos pulmões, nossa respiração ficará reduzida, e não teremos bom aproveitamento da atividade respiratória.

Ao cantar ou falar em público, devemos vestir roupas leves, sapatos confortáveis, e observar a postura corporal: pés ligeiramente afastados, joelhos semi-flexionados e cabeça ereta, sem tensões. É importante manter a calma: ambientes tensos, com fumaça e muitos ruídos, onde sua voz tem que competir com o resto, são muito ruins.

Sobre a alimentação, devemos controlar o excesso dos codimentos, bem como evitar abusos com a cafeína e o álcool. Quando formos utilizar nossa voz, também é indicado evitar o leite e o chocolate, pois favorecem a formação de secreções no trato vocal. Comer maçã é uma boa dica, pois sua função adstringente ajuda a limpar a mucosa da garganta.

Sobre pigarros e tosses, o melhor é tentar evita-los bebendo água pois o atrito que provocam nas pregas vocais é muito forte e nocivo. Devemos evitar a mudança brusca de temperatura dos alimentos ingeridos, tanto do quente para o frio como vice-versa; a prega vocal responde, defendendo-se e produzindo mais muco de secreção.

Sobre a utilização de gengibre e própolis, estes são antibactericidas e podem ser utilizados quando estamos resfriados ou com laringite, mas não quando formos utilizar a voz em público, pois tem um efeito anestésico, o que pode levar-nos a utilizarmos exageradamente a voz, já que não sentimos dor, e depois veremos os estragos!

Para finalizar, é importante que todas as pessoas que utilizam a voz frequentemente tenham um bom técnico vocal, para fazer os exercícios adequados que darão a tonicidade às pregas vocais, além de procurar uma avaliação semestral com um médico otorrinolaringologista.

Não podemos esquecer que nossas cordas vocais não se assemelham às de um violão, que ao arrebentar é só ir na loja e comprar outra, não é mesmo? Para termos uma voz saudável, é importante cuidarmos, e muito, de nossa saúde!!