Julho/18

cordas entrevista: mateus albornoz (contrabaixo)

cordas entrevista: mateus albornoz (contrabaixo)

Nessa 2ª edição do projeto Cordas Entrevista, o professor e contrabaixista Mateus Albornoz fala um pouco sobre o contrabaixo e aprendizado do instrumento. Confira a entrevista abaixo:

1. Tudo bom, Mateus? Para começar: vimos que trouxe teu baixo, ele está ali atrás, muito bonito.

Mateus - Trouxe. Um instrumento muito antigo por sinal. Instrumento com mais de 80 anos de idade. Adquiri há pouco tempo este instrumento.

2. Como você começou com o Baixo Acústico? Tu tocas só este instrumento?

Mateus - Foi uma longa caminhada até eu chegar no baixo acústico. Eu comecei pelo violão, aos 9 anos, mas já estava visando tocar baixo elétrico, e quando eu comecei no baixo elétrico eu tocava um tipo de música que ainda não fazia com que eu tivesse muito conhecimento sobre o baixo acústico. Foi com os anos, tocando baixo elétrico, me dedicando ao estudo de música e a conhecer outros estilos musicais, principalmente o jazz, no meu caso, que eu acabei me envolvendo mais com o baixo acústico, com a sonoridade do instrumento. As gravações que a gente escuta, por exemplo, em praticamente todo jazz dos anos 50 e 60, têm em todos os conjuntos o baixo acústico.

Então acabei conhecendo o instrumento e me apaixonando pelo que eu escutava. Alguns anos atrás que eu finalmente consegui adquirir um baixo acústico e começar a estudar. Eu fiz aula com diversos professores de baixo elétrico antes, e agora eu estou finalizando os meus estudos de baixo acústico, digamos. Além disso, eu comecei a fazer faculdade de licenciatura no IPA, mas isto não relacionado ao baixo acústico, lá eu estudo licenciatura em música de uma forma geral. Mas foi assim que eu acabei no baixo acústico. Já toquei em várias bandas ao longo da minha trajetória, mas hoje tem dois projetos principais nos quais eu toco baixo acústico: a Quinzê, que é um conjunto de Jazz; e também estou tocando com a Rosana Marques, professora e fundadora da Cordas & Cordas, no projeto Tons In Bossa, em que tocamos samba, bossa nova - Tom Jobim, principalmente. Além disso, acompanho a cantora Camila Lopes, com a qual nos apresentamos eventualmente em um formato reduzido, no qual eu uso baixo acústico. Então, eu tinha falado dois, mas na realidade são estes os três projetos nos quais eu uso o baixo acústico atualmente.

3. O Baixo Acústico já foi conhecido como um instrumento que fez muito parte de orquestra, da música erudita. Hoje, porém, é comum encontrar o baixo acústico nos bares, na MPB, no Jazz, e vários outros espaços. O que propiciou essa mudança?

Mateus - Bom, eu diria que a função do baixo, na música, é insubstituível. Principalmente quando tu tens uma seção rítmica (bateria e percussão). O baixo é um instrumento importante, que faz a intersecção da seção rítmica com a seção melódica e harmônica. É um instrumento único, no caso, que tem esta função.

Claro que o baixo acústico começou a ser utilizado principalmente no contexto de orquestras, no contexto erudito, com o arco. Mas nos anos 50, 60, teve o surgimento do baixo elétrico, e na época que ele surgiu muitos baixistas migraram para ele, com uma nova sonoridade, uma novidade, que acabou se popularizando muito. Ele se tornou um instrumento dominante nessa função durante várias décadas, e atualmente eu diria que está acontecendo um movimento retrô, uma retomada do baixo acústico na música popular. Inclusive o jazz é um estilo que acabou se consolidando muito com a sonoridade do baixo acústico, fazendo aquelas linhas do walking bass, e isso está voltando a ficar em voga. Tem muita gente, como eu, que toca baixo elétrico e está começando a tocar acústico. É um movimento que está acontecendo, e que eu noto. Conheço muitos baixistas que começaram no elétrico e passaram para o acústico.
4. O fato de tocar baixo acústico ampliou bastante o teu leque de apresentação Mateus?

Mateus - Bastante. Inclusive, eu ia comentar que o meio no qual eu participei e participo ativamente é o da música popular. Nela, tocando baixo elétrico, tive uma certa quantidade de trabalho, e depois que comecei a tocar baixo acústico de forma séria, a estudar e a dizer para as pessoas que eu tocava baixo acústico, a quantidade de trabalho que eu tinha dobrou.

Por mais que o baixo elétrico e o baixo acústico tenham a mesma função na música, a linguagem que se utiliza, a sonoridade que se obtém do instrumento é outra. Então, tem muita gente que busca para a sua banda a sonoridade do baixo acústico, especificamente, e não do elétrico. Por isso, se você toca elétrico e acústico, você tem uma possibilidade de trabalho muito maior do que se toca só elétrico ou só acústico. E um outro elemento que caracteriza muito o baixo acústico, obtendo uma sonoridade que não se tem no elétrico, é o uso do arco, que se utiliza essencialmente na música erudita, mas também na popular. Então, tocando com o baixo acústico, com o pizzicato (técnica com os dedos) e arco, mais o elétrico, você tem um espectro grande de algo que possa se oferecer para uma banda ou para o grupo em que se participa.

5. O nome "contrabaixo" teria uma relação com o fato de ele oferecer uma linha contrapontística à linha principal melódica das músicas em que se encontra?

Mateus - É verdade. Isto tanto para o baixo elétrico quanto para o baixo acústico. O instrumento se chama contrabaixo não por acaso. Eu, particularmente, sempre penso no baixo, naquelas linhas melódicas que o baixo toca, como uma melodia que se sobrepõe à melodia principal da música, que se contrapõe à melodia principal da música. Isto seria o contraponto. No baixo, muito apesar de, na maioria das vezes, tu estar fazendo uma linha muito rítmica, também se está fazendo uma melodia, com notas subsequentes, mas que às vezes pode não ser a melodia principal da música.

Geralmente, as melodias que são feitas no baixo são contrapontos da melodia principal. Eu penso muito dessa forma, como um instrumento que faz uma melodia de contraponto a uma melodia principal. Daí o nome "contrabaixo acústico" e "contrabaixo elétrico".