Setembro/18

cordas entrevista: andré brandalise (musicoterapeuta)

cordas entrevista: andré brandalise (musicoterapeuta)

Dia 15 de setembro é o Dia Nacional do Musicoterapeuta. A maioria das pessoas, contudo, ainda desconhece a importância que tem essa área de atuação. Às vezes, "musicoterapia" é só uma palavra, que passa despercebida. Para trazer um aprofundamento um pouco maior, e necessário, sobre o assunto, decidimos conversar com André Brandalise, profissional da área.

1. O que é Musicoterapia?

Em primeiro lugar, é um prazer estar conversando com a Cordas & Cordas, que é uma escola de música que tem pioneirismo em oferecer workshops e oficinas de musicoterapia dentro de uma proposta educacional. Nós fizemos na escola três níveis de oficinas, além de um encontro com musicoterapeutas norte-americanos em 1998. Um agradecimento especial para a professora Rosana Marques por isso. Ela é uma pessoa com grande antevisão, e sempre entendeu a importância da aplicação da música como terapia.

A definição de Musicoterapia que coloco abaixo foi feita pela Federação Mundial de Musicoterapia no ano de 1996. É super importante falarmos assim: esta é uma definição que a federação coloca para fins de divulgação e por isso eu coloco para vocês. Mas me perguntar o que é musicoterapia talvez seja como perguntar para um arquiteto "o que é arquitetura", para um educador musical "o que é educação musical". Eu traria uma definição de musicoterapia, enquanto o meu colega que é neuromusicoterapeuta, por exemplo, poderia trazer outra definição, e assim por diante. Nós temos várias definições de musicoterapia.

Há um livro muito importante na nossa literatura que se chama “Definindo Musicoterapia”, de um autor chamado Kenneth Bruscia. Ele levanta a discussão de que não existe uma musicoterapia, mas musicoterapias, e isto não é à toa. À medida que a gente vai evoluindo como profissional, como profissão, a musicoterapia também vai evoluindo em termos da sua definição. Então, eu diria que podemos falar desta definição que eu envio para vocês como uma base. Mas a gente tem para cada profissional, para cada demanda, um “Definindo Musicoterapia”.

Definição:

Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento.

2. Como e por quê começou a estudar Musicoterapia?

Eu sempre tive interesse por psicologia. Se eu não tivesse descoberto a musicoterapia na minha vida, eu certamente seria psicanalista. Talvez ainda seja como musicoterapeuta. Sou muito apaixonado por psicanálise.
A terapia sempre foi algo que me interessou, e eu era estudante de música na UFRGS. Tinha um amigo que tinha um tio, um parente, com Síndrome de Down, e eu tive contato com ele através do violão e foi muito bacana o encontro. Eu pensava: “um dia eu gostaria de experienciar trabalhar com pessoas com algum tipo de demanda especial”. Eu estava no segundo ano da minha faculdade de música, quando eu vi um cartaz no Instituto de Artes solicitando um professor de música para trabalhar com um grupo de autistas. Eu liguei para a instituição chamada Novo Horizonte, me atendeu a terapeuta chamada Viviane de Leon, que hoje é umas das pessoas que mais conhece sobre autismo no Brasil. E comecei a trabalhar com ela. Isto foi em março de 1991, e desde então, de 1991 até agora, eu trabalho com qualquer tipo de transtorno do neurodesenvolvimento, sou apaixonado por pessoas nesta condição.

Me apaixonei por musicoterapia e terminei a faculdade de música. Neste momento, já participava de vários congressos no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Eu já conhecia os professores, tinha decidido que depois da faculdade eu iria para o Rio de Janeiro - que era o centro de musicoterapia brasileira na época - e estudaria com Lia Rejane Mendes Barcellos, Cecília Conde, Marco Antonio Carvalho Santos, Marly Chagas e Martha Negreiros. Este pessoal pioneiro em musicoterapia no Rio. Então, eu fiz a especialização lá.

Como nós não temos uma continuidade de cursos aqui, não temos mestrado no Brasil, decidi fazer mestrado na Universidade de Nova York, onde tive a oportunidade de conhecer Nordoff Robbins, que é uma abordagem muito importante de musicoterapia improvisacional. Voltei, abri meu centro que é o Centro Gaúcho de Musicoterapia, fiquei mais alguns anos no Brasil e novamente fui para o Doutorado na Temple University, que é um programa todo organizado pelo Kenneth Bruscia. Fiz meu PhD lá. É o único PhD, juntamente da Universidade de Augsburg, especificamente em Musicoterapia.

3. Quais são as pesquisas mais recentes da Musicoterapia?

Hoje, eu diria que a comunidade mundial da Musicoterapia tem pesquisas em todas as áreas, como por exemplo: “Estados Alterados de Consciência”, que é o antigo coma; bebês prematuros; gestantes (um trabalho muito bonito, que nós temos na Maternidade Escola da UFRJ); neuróticos funcionais (destaco o trabalho da Sorbonne, na França); neurodesenvolvimento (que tem vários trabalhos pelo mundo); idosos... Enfim, a psiquiatria de forma geral, todos os tipos de transtornos de personalidade e transtornos psiquiátricos.

Pensando em idosos, muitas pesquisas relacionadas com o Alzhaimer, com o Parkinson, então é realmente muito diversificado e muito espalhado. Hoje, já temos muitas especificações da Musicoterapia, já se fala em Musicoterapia Analitica, Musicoterapia Comportamental, Musicoterapia Nordoff Robbins, Musicoterapia Musicocentrada, Neuromusicoterapia. Existe uma diversidade de abordagens dentro da Musicoterapia.