Março/19

concepção do espetáculo “Tons in Bossa – Homenagem à Leny Andrade”

concepção do espetáculo “Tons in Bossa – Homenagem à Leny Andrade”

O texto abaixo foi escrito por Rosana Marques, coordenadora da Cordas & Cordas e cantora no projeto Tons in Bossa:

Desde o ano de 1990, venho desenvolvendo projetos que tratam de movimentos específicos da música popular brasileira e de seus compositores. Ao pesquisar com mais afinco acerca deste importante movimento da nossa música, a Bossa Nova, fiz algumas descobertas que me levaram a conceber este show.

Primeiramente, foi surpreendente saber que muito antes de João Gilberto cantar e tocar ao violão aquela que seria a maior música representante da bossa nova, a canção "Chega de Saudade" (1958), composta por Antônio Carlos Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980), lançada no álbum "Canção do Amor Demais" (1958), outros músicos já reproduziam esta "batida diferente" que lhe era peculiar. Refiro-me ao compositor e violonista Garoto (1915-1955) e ao pianista e também compositor Johnny Alf (1929-2010). Influenciados pela música norte-americana da década de 1940, eles começaram a tocar de forma diferente, com complexos encadeamentos harmônicos em levadas sincopadas e improvisações. O que Johnny Alf fazia de forma inovadora ao piano foi mais tarde reproduzido por João Gilberto, quase como um "inconsciente coletivo". Percebi que, na verdade, existiram duas correntes na Bossa Nova: uma formada por jovens cantores e compositores de classe média, da Zona Sul do Rio de Janeiro que tinham "o violão, o banquinho e a praia" como elementos de identificação, numa perspectiva mais "cool" do movimento, tendo João Gilberto e Nara Leão como grandes representantes; e outra corrente formada por compositores e instrumentistas da Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, que desenvolviam a Bossa Nova mais "pesada" e jazzística, como Johnny Alf, Durval Ferreira (1935-2007), Mauricio Einhorm (1932), Luis Eça (1936-1992) do Tamba trio, entre outros. Mais um fato relevante em minha pesquisa foi perceber que Johnny Alf, ao contrário de João Gilberto, foi o clássico caso de grandes artistas que não alcançaram em vida o devido reconhecimento.
Entre um compositor e outro, grandes instrumentistas e arranjadores, me deparo com uma das maiores intérpretes deste movimento: Leny Andrade (26 de janeiro de 1943). Ela transita entre baladas românticas, boleros, salsas, sambas canção e principalmente sambas jazz com a mesma técnica e emoção, priorizando os idiomas latino-americanos. Atualmente, com 75 anos de idade e 60 de carreira, mantém sua destreza vocal com apurado senso rítmico e grande sagacidade mental, dialogando com os músicos através de refinados fraseados melódicos em divisões rítmicas sincopadas com "scats singings" (canto vocalizado do jazz) que aprendeu na década de 1950 com a compositora e cantora carioca Dolores Duran (1930-1959).

Dentre as pretensas "correntes" da Bossa Nova citadas anteriormente, certamente a de Johnny Alf foi a escolhida por Leny em suas interpretações. Seu canto é vigoroso e intenso, e não "econômico" e delicado como o dos bossa novistas de Ipanema e Copacabana.

Acreditando que os "vivos" também devem ser lembrados, nosso projeto pretende celebrar este grande momento jazzístico da bossa nova, incluindo compositores pouco reconhecidos, através da interpretação de temas escolhidos por Leny Andrade em seus 60 anos de carreira.

O Tons in Bossa é composto por quatro músicos que acompanham a cantora principal, com arranjos próprios. O músico Jorginho do Trompete fará uma participação especial, dividindo com a cantora as improvisações melódicas. O Grupo Vocal MPB fará também uma participação especial interagindo com a plateia. A proposta é fazer um espetáculo dinâmico em que todos participem, em um grande diálogo musical.